Como estamos construindo a área vocal da PIB Curitiba


 

Introdução

No último domingo tivemos um daqueles momentos que enchem o coração de esperança. Durante o ensaio para a apresentação especial do Dia dos Pais, reunimos o coral infantil, o coral de pré-adolescentes e o coral de adolescentes. O resultado foi um som que chamou a atenção de muita gente: crianças e adolescentes cantando em vozes, com musicalidade, unidade e alegria.

Mais do que um ensaio, aquele momento revelou o fruto de um trabalho que vem sendo desenvolvido há anos. Assista ao vídeo abaixo e perceba não apenas a beleza das vozes, mas também a naturalidade com que essas diferentes gerações cantam juntas. Foi justamente depois desse ensaio que algumas pessoas me fizeram a mesma pergunta: "Samuel, como vocês conseguiram construir essa área vocal na PIB Curitiba?"

A pergunta faz sentido. Hoje vemos crianças iniciando sua formação vocal desde cedo, pré-adolescentes e adolescentes dando continuidade a esse desenvolvimento, um grande coro congregacional com cerca de 200 participantes, além de diferentes equipes vocais atuando nos cultos e musicais da igreja. Mas nada disso surgiu de repente. O que vemos hoje é resultado de uma visão ministerial, de um processo intencional de formação e de muitos anos investindo não apenas em música, mas em pessoas.

Neste artigo quero compartilhar um pouco dessa caminhada. Não para apresentar um modelo pronto a ser copiado, mas para mostrar alguns princípios que têm norteado nosso trabalho e que podem servir de inspiração para outras igrejas que desejam desenvolver uma cultura de excelência, participação e discipulado por meio do canto coral.


1. Uma visão para as próximas gerações

Quando cheguei à PIB Curitiba, há dez anos, a convite do pastor Paulo Davi, nossa área vocal era composta por apenas dois corais que ensaiavam regularmente. Havia um coro de perfil mais tradicional, formado principalmente por adultos e idosos, e um coro com uma proposta mais contemporânea, voltado para um público mais jovem. Apesar das diferenças de estilo, a média de idade dos participantes era de aproximadamente 40 anos. Havia uma ausência significativa de crianças, pré-adolescentes, adolescentes e jovens envolvidos no ministério coral da igreja.

Diante dessa realidade, começamos a orar e buscar a direção de Deus. Nosso desejo era formar uma nova geração de cantores que garantisse a continuidade do canto coral na igreja e, ao mesmo tempo, contribuísse para o fortalecimento da qualidade vocal dos nossos cultos. A primeira resposta veio em 2016. Uma irmã nos procurou dizendo que Deus havia colocado em seu coração o desejo de reativar o coral infantil, que até então se reunia apenas para apresentações especiais. Assim nasceu o CCA Kids (Coro Compromisso Adoração Kids), destinado às crianças de 5 a 12 anos.

Foto: CCA Kids (vermelho) e Arts UP (verde)

Algum tempo depois, uma dupla de adolescentes me procurou com um sonho semelhante: criar um coro para adolescentes. Naquele período, eu estava desenvolvendo minha pesquisa de mestrado em Teologia sobre a forma como a Geração Z compreendia o louvor e a adoração. Pude compartilhar com eles essa visão ministerial, e eles abraçaram o desafio de iniciar esse novo trabalho, O One Flow Arts.

Foto: One Flow Arts

Nesse momento, a igreja já não possuía apenas dois corais. Passamos a contar com quatro grupos vocais, enquanto o antigo grande coro, que antes se reunia apenas para eventos especiais, também foi sendo estruturado até tornar-se um ministério permanente: o Coro Compromisso Adoração.

Foto: Coro Compromisso Adoração

Alguns anos depois, a área infantil da igreja reorganizou suas faixas etárias, criando um ministério específico para os pré-adolescentes, de 10 a 12 anos. Essa mudança revelou uma necessidade que já era perceptível: as crianças mais velhas do coral infantil desejavam desafios compatíveis com sua idade, enquanto o grande número de participantes também justificava a divisão dos grupos. Mais uma vez, Deus surpreendeu nossa equipe. Uma regente nos procurou oferecendo ajuda e, há cerca de três anos, logo após a pandemia, liderou a reativação do coro de pré-adolescentes, chamado de Arts UP.

Foto: Arts Up

O processo continuou naturalmente. Um dos regentes do coro de adolescentes cresceu, tornou-se líder da juventude e percebeu que era hora de estruturar também um coro voltado aos jovens da igreja, o Coral One. Assim, ao longo de uma década, aquilo que começou com dois corais transformou-se em uma área vocal composta por sete corais, atendendo diferentes faixas etárias e etapas da vida.

Foto: Coral ONE

Hoje, aproximadamente 750 pessoas participam desses ministérios. Mais do que um número expressivo, esse crescimento representa uma convicção que Deus foi confirmando ao longo dos anos: quando a igreja investe intencionalmente nas novas gerações, ela não está apenas formando bons cantores, mas preparando adoradores que servirão a Cristo por toda a vida.

Seria injusto contar essa história mencionando apenas as conquistas. Ao longo dessa caminhada, também enfrentamos desafios importantes e nem todos puderam ser superados. Um deles foi a descontinuidade de um dos corais que existiam quando chegamos à PIB Curitiba. Fizemos diversas tentativas de integrar aquele grupo à nova visão que estava sendo construída para a área vocal da igreja. Houve diálogo, adaptações e muito esforço, mas, ao final, compreendemos que não seria possível dar continuidade àquele ministério dentro da nova estrutura. Outro desafio foi lidar com a resistência natural que toda mudança produz. Nem todos os grupos ou líderes enxergaram essa visão da mesma forma ou caminharam no mesmo ritmo. Ainda hoje, convivemos com diferentes compreensões sobre o papel do canto coral na vida da igreja.

Faço questão de registrar isso porque não desejo transmitir a ideia de que essa caminhada foi feita apenas de vitórias e crescimento contínuo. Toda liderança que busca construir uma visão de longo prazo enfrentará tensões, frustrações e, em alguns momentos, perdas. Faz parte do processo de mudança. O importante é que essas dificuldades não nos façam perder de vista aquilo que Deus colocou diante de nós. Quando temos convicção de que uma direção nasceu em oração e está alicerçada em princípios bíblicos, seguimos caminhando com humildade para reavaliar o que for necessário, corrigir os rumos quando preciso e perseverar até que a visão amadureça. Afinal, construir uma cultura ministerial não é um projeto de poucos meses. É uma obra de muitos anos, que exige paciência, dependência de Deus e disposição para continuar olhando sempre para a próxima geração.


2. Mais do que formar coristas: construir uma cultura vocal

Nosso objetivo nunca foi simplesmente reduzir a média de idade dos vocalistas da igreja. É claro que esse indicador é importante e demonstra que novas gerações estão chegando. Mas esse nunca foi o verdadeiro propósito. O grande desafio sempre foi construir uma cultura vocal saudável. Infelizmente, muitos líderes ainda enxergam o canto coral apenas como um ministério de apresentações especiais. Na prática, porém, ele é uma das ferramentas mais eficientes para a formação musical da igreja.

Quando chegamos à PIB Curitiba, percebemos uma realidade comum em muitas comunidades: a maioria dos integrantes das equipes vocais cantava apenas em uníssono. Poucos possuíam segurança para cantar em vozes. Além disso, eram frequentes dificuldades de afinação, timbragem, equilíbrio entre as vozes, percepção auditiva e escuta coletiva. Essas competências não costumam ser desenvolvidas em ensaios de banda ou apenas na experiência do palco. Elas são construídas, principalmente, na prática vocal coletiva. É no coral que o cantor aprende a ouvir o outro, encontrar sua voz dentro da harmonia, controlar o próprio timbre, afinar com precisão, interpretar musicalmente uma obra e compreender que cantar bem é muito mais do que cantar alto ou aparecer.

Talvez o maior problema fosse justamente este: estávamos formando muitos solistas, mas poucos vocalistas. Por isso, entendemos que era necessário criar um ambiente onde essas habilidades fossem desenvolvidas desde a infância. O investimento em corais para diferentes faixas etárias permite que crianças, pré-adolescentes, adolescentes, jovens e adultos cresçam musicalmente de forma progressiva, acumulando experiências ao longo dos anos. É um processo lento. Não se forma um bom vocalista em poucos meses. A construção de uma cultura vocal exige tempo, constância e intencionalidade. 

Nada disso teria sido possível sem uma parceria genuína entre o Ministério de Música e os ministérios das diferentes faixas etárias da igreja. Aprendemos, ao longo dos anos, que os corais não podem competir com a programação dos ministérios infantis, de pré-adolescentes, adolescentes ou jovens. Sempre que existe competição por agenda, por prioridade ou pela participação dos alunos, quem acaba sendo prejudicado é o próprio corista e sua família. Por isso, escolhemos um caminho diferente: construir juntos. 

Essa parceria exigiu muito diálogo, planejamento e humildade. Houve tentativas que não deram certo, ajustes de calendário, mudanças de estratégia e aprendizados importantes. Aos poucos, compreendemos que os corais não pertencem apenas ao Ministério de Música. Eles pertencem também à própria faixa etária da igreja. Isso mudou nossa forma de trabalhar. Os ensaios passaram a ser pensados dentro da programação de cada ministério, e os corais deixaram de ser apenas grupos que se apresentam nos cultos de domingo. Eles passaram a servir, de forma intencional, nas programações das próprias faixas etárias, fortalecendo a identidade ministerial de cada grupo.

Esse processo ainda está em construção. Algumas áreas já caminham com grande integração; outras ainda estão ajustando seus processos. Mas hoje já conseguimos perceber os benefícios dessa visão compartilhada. A área vocal consegue cumprir sua missão de formar vocalistas com excelência, enquanto os ministérios etários recebem crianças, pré-adolescentes, adolescentes e jovens mais preparados para servir, tanto musicalmente quanto espiritualmente.

Basta participar de um culto infantil ou de adolescentes na PIB Curitiba para perceber essa transformação. Comparando com alguns anos atrás, é possível notar uma evolução evidente não apenas na qualidade musical e na performance, mas também na forma como esses jovens compreendem seu papel como adoradores e ministros dentro da igreja. Essa integração nos ensinou uma lição valiosa: quando os ministérios deixam de disputar pessoas e passam a compartilhar uma mesma visão, toda a igreja cresce.

Hoje, nossa estrutura possibilita que, desde muito cedo, os participantes desenvolvam competências fundamentais, como cantar em vozes, fazer leitura e acompanhamento de partituras, ampliar seus conhecimentos de teoria musical, aperfeiçoar a percepção auditiva, cuidar da afinação, trabalhar a homogeneidade do timbre e desenvolver recursos de interpretação, expressão e performance. O resultado dessa formação vai muito além dos corais. Ela beneficia diretamente as equipes de louvor, os musicais, as gravações e, principalmente, o canto congregacional da igreja. Quando uma igreja investe na formação de seus vocalistas, toda a comunidade passa a cantar melhor.


3. Formamos vocalistas, mas, acima de tudo, discípulos

Existe ainda um valor que orienta toda a nossa área vocal e que considero indispensável: o discipulado. Recentemente, realizei uma pesquisa entre os participantes do Coro Compromisso Adoração, nosso coral de adultos. Um dado chamou bastante a atenção: cerca de 75% dos integrantes vieram de outras igrejas, inclusive de diferentes denominações. Esse é um reflexo de um movimento que a PIB Curitiba tem vivido nos últimos anos. Muitas pessoas têm chegado à nossa comunidade trazendo consigo experiências ministeriais muito ricas. Entre elas, encontramos excelentes vocalistas, muitos formados em igrejas onde a cultura coral é bastante desenvolvida. Estamos profundamente gratos por essa contribuição, que certamente fortaleceu nossa área vocal.

Ao mesmo tempo, essa realidade nos fez perceber uma verdade importante: uma igreja não pode depender apenas de pessoas já formadas em outros contextos. Ela precisa assumir a responsabilidade de formar sua própria geração de adoradores. Mais do que ensinar técnica vocal, leitura musical ou canto em vozes, precisamos investir na formação espiritual daqueles que ministram através da música. A excelência artística nunca pode caminhar separada da maturidade cristã. Por isso, em todos os nossos corais, independentemente da faixa etária, buscamos cultivar uma cultura de discipulado. Queremos que cada ensaio seja também um ambiente de crescimento espiritual, onde crianças, pré-adolescentes, adolescentes, jovens e adultos sejam encorajados a desenvolver uma vida de oração, devoção, santidade, comunhão e serviço.

Nosso sonho não é apenas formar pessoas que cantem bem. Nosso sonho é formar homens e mulheres que amem profundamente a Cristo e que utilizem os dons que receberam para servir à Igreja com humildade, excelência e fidelidade. Acreditamos que, quando o discipulado acompanha a formação musical desde a infância, a igreja deixa de apenas receber bons vocalistas e passa a formar discípulos de Jesus que, naturalmente, também se tornam excelentes ministros de música.

Essa visão não acontece automaticamente. Um coral não se torna um ambiente de discipulado apenas porque seus integrantes são cristãos. É preciso intencionalidade. Ao longo dos anos, fizemos alguns ajustes importantes para que o discipulado deixasse de ser um discurso e se tornasse uma prática cotidiana. 

O primeiro deles foi redefinir o papel dos nossos ensaiadores e líderes de naipe. Procuramos capacitá-los para compreender que sua função vai muito além de ensinar as notas, corrigir ritmos ou preparar um repertório. Cada líder de soprano, contralto, tenor ou baixo também é um líder espiritual daquele grupo. Esperamos que esses líderes conheçam as pessoas, acompanhem suas lutas, orem com elas, incentivem sua caminhada com Cristo e façam do ensaio um verdadeiro ambiente de comunhão e crescimento espiritual. Esse processo exigiu tempo. Não se formam discipuladores da noite para o dia. Foi necessário investir na formação desses líderes para que eles também aprendessem a cuidar de pessoas, e não apenas de música.

Paralelamente, estruturamos uma área específica de discipulado dentro da própria área vocal. Hoje temos uma liderança dedicada a coordenar esse trabalho. Sempre que uma pessoa ingressa em um dos corais, procuramos conhecê-la melhor. Se percebemos que ela ainda não foi batizada, precisa ser preparada para esse passo ou necessita de um acompanhamento mais próximo em sua caminhada cristã, acionamos nossa rede de discipuladores. Nosso objetivo é simples: que ninguém caminhe sozinho. Nas reuniões de liderança, além de tratarmos de repertório, escalas e questões organizacionais, dedicamos tempo para conversar sobre pessoas. Compartilhamos necessidades, acompanhamos histórias, oramos juntos e definimos como cada integrante poderá ser melhor cuidado.

Essa mesma intencionalidade está presente nos ensaios. Procuramos fazer com que cada encontro seja mais do que um momento de preparação musical. As músicas são ensaiadas à luz daquilo que ensinam. Refletimos sobre suas mensagens, fazemos aplicações para a vida cristã e buscamos conectar aquilo que cantamos com a maneira como vivemos. Naturalmente, todo ensaio também inclui um momento devocional baseado na Palavra de Deus, porque entendemos que nenhuma excelência musical pode substituir uma vida transformada pelo evangelho. Afinal, nosso objetivo nunca foi apenas ensinar pessoas a cantar melhor. Sempre foi ajudá-las a seguir Jesus de maneira mais fiel, servindo à igreja com os dons que Ele mesmo lhes concedeu.


4. Nenhum ministério cresce sozinho

Ao olhar para essa caminhada de dez anos, tenho uma convicção muito clara: eu jamais conseguiria construir essa estrutura sozinho. Antes de qualquer estratégia, reconhecemos a mão de Deus conduzindo esse processo. Foi Ele quem abriu portas, despertou sonhos e, principalmente, enviou pessoas para caminhar conosco. Mas receber pessoas é apenas o começo. O líder também precisa assumir a responsabilidade de formar, capacitar, acompanhar e pastorear aqueles que Deus envia.

Foi com esse propósito que estruturamos aquilo que chamamos de Equipe A da área vocal. Hoje somos doze regentes, ensaiadores e líderes que compreenderam que seu ministério é servir à igreja por meio da formação de vocalistas e do discipulado de pessoas. Mais do que uma equipe técnica, buscamos ser uma comunidade de líderes que caminham juntos. Essa caminhada exige investimento constante. É preciso compartilhar visão, alinhar valores, desenvolver competências, oferecer acompanhamento pastoral e criar um ambiente onde todos enfrentem os desafios do ministério de forma unida.

A liderança na igreja é desafiadora. Todos os nossos líderes são voluntários. Eles conciliam ministério, trabalho, família e inúmeras responsabilidades. Sem cuidado pastoral, é muito fácil que o cansaço, os conflitos e as frustrações produzam feridas e, em alguns casos, até o abandono do ministério. Por isso, ao longo dos anos, percebi que minha principal função deixou de ser apenas reger corais ou fazer música. Hoje, meu maior chamado é cuidar de quem cuida. Liderar líderes, discipular líderes e formar novos líderes tornou-se uma das tarefas mais importantes do meu ministério. Afinal, uma área vocal não se sustenta apenas por bons arranjos, grandes apresentações ou excelentes vocalistas. Ela se sustenta quando existe uma equipe saudável, unida pela mesma visão e comprometida em servir às próximas gerações. 

Se alguém me perguntasse hoje qual é o segredo da área vocal da PIB Curitiba, eu responderia sem hesitar: não são os sete corais, nem os centenas de participantes. O verdadeiro segredo está nas pessoas que Deus levantou ao longo dessa caminhada e na decisão de investir continuamente na formação delas. Porque, no Reino de Deus, ministérios saudáveis não são construídos por uma única pessoa. Eles são construídos por equipes que compartilham a mesma visão, servem com humildade e entendem que formar pessoas sempre será mais importante do que realizar eventos. E talvez essa seja a maior lição desses últimos dez anos: quando investimos intencionalmente em pessoas, Deus se encarrega de multiplicar os frutos.


5. O divisor de águas: quando o coral deixou de cantar para a igreja e passou a cantar com a igreja

Se eu tivesse que apontar um momento que mudou definitivamente a área vocal da PIB Curitiba, diria que ele aconteceu logo após a pandemia. Quando as atividades presenciais foram interrompidas, em 2020, nossa maior preocupação não era manter a produção musical, mas cuidar das pessoas. Por isso, mesmo sem ensaios presenciais, continuamos nos encontrando semanalmente de forma on-line. Durante esse período gravamos alguns clipes em formato mosaico, mas esse nunca foi o principal objetivo. O mais importante era preservar os vínculos, manter o discipulado, acompanhar os vocalistas e atravessar aquele período tão difícil, permanecendo juntos como ministério.

Quando retornamos às atividades presenciais, ainda em 2021, enxerguei naquele recomeço uma oportunidade rara: não apenas voltar ao que fazíamos antes, mas corrigir estruturas que já não serviam mais aos valores que desejávamos fortalecer. A principal mudança foi acabar com a separação entre back vocal e corista. Até então, muitos vocalistas participavam apenas das escalas de louvor, enquanto o coral seguia um caminho paralelo. Essa divisão limitava o desenvolvimento musical e enfraquecia a identidade ministerial da equipe. Foi então que reestruturamos o Coro Compromisso Adoração. Ele deixou de ser apenas um coro voltado para apresentações especiais e passou a assumir uma missão muito mais ampla: tornar-se um coro de adoração, cuja principal função é sustentar e fortalecer o canto congregacional. Na prática, isso significou que o coral passou a cantar todo o repertório do culto junto com a banda. Os arranjos vocais deixaram de ser exclusivos do back vocal e passaram a envolver todo o coro. 

A partir de 2022, consolidamos essa mudança: todo integrante do back vocal passou, necessariamente, a fazer parte do Coro Compromisso Adoração. Essa decisão transformou completamente nossa realidade. Os vocalistas passaram a receber formação semanal, mesmo quando não estavam escalados para ministrar. O repertório passou a ser constantemente revisado, os arranjos permaneceram vivos na memória da equipe, e o desenvolvimento técnico tornou-se contínuo. Percebemos uma melhora significativa na afinação, na segurança para cantar em vozes, na qualidade dos timbres, no comprometimento com os ensaios e, principalmente, no senso de pertencimento ao ministério.

Mas talvez o maior impacto tenha acontecido dentro do culto. A igreja respondeu de forma extremamente positiva. O coro deixou de ser visto apenas como um grupo que apresentava uma música especial e passou a ser percebido como um elemento ativo na condução da adoração congregacional. Curiosamente, em muitos cultos o coral sequer apresentou uma música especial. Ainda assim, sua presença foi marcante simplesmente por sustentar o canto da congregação durante todo o período de louvor.

Três anos depois dessa mudança, vivemos uma realidade interessante: quando, por alguma razão, o coral não canta uma peça especial, muitas pessoas sentem sua falta. Não porque esperam uma apresentação, mas porque aprenderam a reconhecer o quanto a presença do coro enriquece a experiência de adoração da igreja. Essa experiência também nos ensinou uma lição importante. Durante muitos anos, diversas igrejas compreenderam o coral principalmente como um grupo de performance. Hoje, acredito que essa compreensão precisa ser ampliada. O protagonismo do culto não pertence ao coral, nem à banda, nem aos vocalistas. Pertence à congregação. Por isso, quanto mais a igreja canta, melhor. O papel do coral não é substituir a voz do povo, mas fortalecê-la. Não é cantar para a congregação, mas cantar com ela. Quando o coral assume essa missão, deixa de ser apenas um ministério artístico e torna-se um verdadeiro instrumento pastoral, conduzindo a igreja a participar da adoração com mais confiança, beleza e unidade.

Conclusão

Ao escrever este artigo, meu objetivo não foi apresentar um modelo pronto para ser reproduzido por outras igrejas. Cada comunidade possui sua própria realidade, sua cultura e os recursos que Deus lhe concedeu. O que desejo compartilhar são princípios que, ao longo desses dez anos, Deus tem confirmado em nosso coração.

Aprendemos que uma área vocal forte não nasce da noite para o dia. Ela é construída com visão, oração, perseverança e investimento contínuo em pessoas. É um trabalho que exige paciência para formar crianças, coragem para desenvolver adolescentes, sensibilidade para discipular jovens e adultos e humildade para formar novos líderes que darão continuidade àquilo que começou muito antes deles.

Também aprendemos que excelência musical e maturidade espiritual não podem caminhar separadas. Não basta formar excelentes vocalistas se eles não estiverem crescendo como discípulos de Jesus. Da mesma forma, não basta ter pessoas piedosas se elas não forem capacitadas a servir com dedicação e competência os dons que Deus lhes confiou.

Hoje, quando vejo mais de setecentas pessoas distribuídas entre os diversos corais da PIB Curitiba, não penso, em primeiro lugar, na dimensão da estrutura que foi construída. Penso nas histórias de transformação que Deus escreveu por meio dela. Crianças que descobriram seu dom, adolescentes que encontraram um lugar para servir, jovens que permaneceram firmes na caminhada cristã, adultos que redescobriram a alegria de cantar e líderes que compreenderam que seu maior ministério é cuidar de pessoas.

O vídeo que motivou este artigo mostra apenas alguns minutos de um ensaio. Nele vemos crianças, pré-adolescentes e adolescentes cantando juntos para o Dia dos Pais. Para muitos, é apenas um belo momento musical. Para mim, ele representa dez anos de oração, discipulado, formação de líderes, investimento em gerações e, acima de tudo, a fidelidade de Deus. Se existe uma convicção que permanece depois de toda essa caminhada, é esta: igrejas não constroem uma cultura vocal apenas formando cantores; constroem uma cultura de adoração formando discípulos. E, quando uma igreja decide investir intencionalmente em pessoas, Deus faz muito mais do que produzir boa música. Ele forma uma geração que O adorará não apenas com belas vozes, mas com a própria vida. Que esse seja sempre o nosso maior propósito.


SAMUEL VIEIRA BARROS
Ministro Auxiliar de Adoração e Artes da PIB de Curitiba

Comentários

  1. Que relato histórico emocionante na área vocal da PIB CTBA. Que Deus continue capacitando e abençoando nosso Ministro Samuel, todos os nossos líderes e que juntos possamos seguir com o mesmo foco que foi relatado desde o início do texto! A Deus todo Honra e Glória!

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  2. Que lindo Samuel. Parabéns! "Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o seu nome (Hb 13.15)".

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